Alexandre Curi está prestes a deixar o PSD para se filiar ao Republicanos e disputar o governo do Paraná. O movimento tem lastro. Em outubro de 2025, o Republicanos já havia colocado Curi no palco nacional como pré-candidato, em Brasília, com recado de protagonismo no estado.
O pano de fundo é o desgaste interno depois que o grupo do governador Ratinho Junior (PSD) passou a sinalizar preferência pelo secretário das Cidades, Guto Silva (PSD), como herdeiro do Palácio Iguaçu. Na base da ALEP, a avaliação é de autopreservação. Deputados olham o próprio mandato e temem pagar a conta de uma candidatura que não empolga, não costura apoios e não vira âncora eleitoral.
A tensão explodiu quando o secretário de Agricultura, Márcio Nunes (PSD), soltou a frase que virou senha política. Chamou Curi de “piá pançudo que não foi escolhido”, comparação de bastidor lida como desrespeito e que acendeu solidariedade dentro da Casa.
Na prática, a fala organizou o que estava disperso. Governistas ouvidos descrevem um ambiente em que parlamentares avaliam trocar de legenda para não ficarem amarrados a uma chapa com baixo desempenho, risco direto para a reeleição. A crise deixa de ser disputa de vaidade e vira cálculo de sobrevivência.
Ou seja, Márcio Nunes não só ofendeu. Ele adiantou o desfecho.
Na leitura de deputados governistas, a frase embutiu uma mensagem, Ratinho Júnior já teria decidido o rumo da sucessão e, com isso, Alexandre Curi e Rafael Greca seriam tratados como nomes preteridos, sem espaço no plano principal do Palácio Iguaçu.
O incômodo cresceu porque a fala não atingiu apenas Curi. Ela serviu como recado ao ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca (PSD), hoje secretário de Desenvolvimento Sustentável, igualmente visto como alternativa interna que ficou fora do trilho do favoritismo palaciano.
A suspeita, no bastidor, é que Nunes “pensou alto” e revelou a intenção do núcleo duro do governo de dar bypass nos dois depois do prazo fatal da janela partidária. Em 2026, esse limite cai no dia 5 de abril, quando a porta se fecha para trocas de legenda sem punição com perda de mandato.
Esse detalhe do calendário muda tudo. Até a janela, o governo administra convivência, distribui afagos e segura o discurso de harmonia. Passou a data, o poder se sente liberado para escantear, porque a capacidade de reação diminui para quem hesita.
Foi isso que acendeu a conflagração na ALEP. A frase de Nunes foi interpretada como aviso, se Curi não se mexer antes, perde o timing. Na política, perder o timing costuma significar perder o jogo.
Daí nasce a debandada antecipada. Deputados, sobretudo os que dependem de estrutura regional e cálculo fino de coligação, não querem esperar para descobrir tarde demais se estarão num partido que vai investir energia e recursos em outro projeto condenado ao fracasso.
O movimento tende a ganhar forma sob a liderança de Alexandre Curi porque ele reúne dois ativos que pesam na Assembleia, comando institucional, como presidente da ALEP, e capilaridade municipal, construída ao longo de mandatos, com prefeitos e bases no interior.
Na avaliação política, a frase “piá pançudo” virou senha porque juntou humilhação e cronograma. Ela deu ao plenário um motivo emocional para reagir e um motivo prático para agir depressa. Em política, quando emoção e calendário se alinham, a migração vira enxurrada.
A foto do domingo entra aí como peça de contexto. Lupion é o principal nome do Republicanos no Paraná, e a sigla já sinalizou que quer ampliar musculatura com filiações na janela partidária. A imagem ao lado de Curi dá forma ao que o bastidor cochicha, a saída do PSD parece menos hipótese e mais cronograma.
Enquanto isso, Ratinho tenta manter a decisão nacional do PSD amarrada ao calendário. Ele disse que o partido vai definir o nome para a Presidência após o prazo de desincompatibilização, até dia 4 de abril, quando ocupantes de cargos precisam se afastar para disputar. O calendário, por tabela, empurra a sucessão do Paraná para um funil apertado, porque a base não espera eternamente.
Portanto, a ALEP começa a semana sob um fato político incômodo para o Palácio Iguaçu. Quando a base cogita debandada, a “unidade” vira palavra oca e distante. Se a costura de Ratinho insistir num nome que não agrega, o preço pode ser alto em 2026, menos bancada, menos palanque, menos controle do jogo.