Michelle deixa Flávio Bolsonaro sem palanque feminino no PL
Michelle Bolsonaro (PL) transformou em crise nacional, nesta terça-feira (30), a tentativa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de pacificar o eleitorado feminino: Damares Alves (Republicanos-DF) disse que não irá à reunião de mulheres conservadoras marcada para amanhã (1º de julho), previu ausência de Michelle, e a ex-primeira-dama anunciou a saída da presidência do PL Mulher no mesmo dia. A consequência é direta: o pré-candidato de Jair Bolsonaro ao Planalto perde vitrine feminina no momento em que tenta unificar a direita.
O furdúncio não começou em 30 de junho. No início de dezembro de 2025, o Blog do Esmael registrou em vídeo a fala em que Michelle abriu fogo contra a articulação do PL com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, acordo que aliados apresentaram como parte da estratégia para derrotar o Partido dos Trabalhadores (PT) no estado.
A crise de dezembro tinha nome, endereço e palanque: Ciro Gomes, André Fernandes (PL-CE), Eduardo Girão (Novo-CE), Valdemar Costa Neto e a família Bolsonaro. À época, André Fernandes disse que Jair Bolsonaro, Valdemar, Flávio e Rogério Marinho sabiam das conversas com Ciro, enquanto Michelle não havia sido consultada.
A ferida reabriu em 24 de junho de 2026, quando Michelle publicou vídeos com críticas nominais a Flávio Bolsonaro. Segundo registro do Blog do Esmael, ela afirmou ter sido “humilhada”, “maltratada” e “desrespeitada” pelo enteado em uma ligação sobre as articulações do PL no Ceará.
O ponto político é maior que uma briga familiar. Michelle era a presidente do PL Mulher, fala com eleitoras conservadoras e evangélicas, circula por bases que Flávio Bolsonaro precisa alcançar e carrega uma moeda que nenhum dos filhos de Jair Bolsonaro tem no mesmo grau: a possibilidade de disputar o comando simbólico da direita pelo voto feminino.
Flávio Bolsonaro tentou baixar a temperatura. Ele disse a Valdemar Costa Neto estar disposto a pacificar a relação com Michelle. Mas a resposta do campo de Michelle veio por ausência: Damares recusou o encontro de mulheres conservadoras e indicou que a ex-primeira-dama também não compareceria.
O movimento mais duro veio no fim desta terça. Michelle deixou a presidência do PL Mulher alegando que se dedicará integralmente aos cuidados com Jair Bolsonaro e com a filha. A renúncia tira dela o cargo formal, mas não retira sua força política; ao contrário, a desobriga de carregar Flávio Bolsonaro nos ombros.
O segundo incêndio envolve Daniel Vorcaro e o Banco Master. Aliados de esquerda e de direita passaram a enxergar nas postagens de Michelle uma sinalização de que ela saberia de informações potencialmente comprometedoras sobre Flávio Bolsonaro.
Michelle repostou conteúdo sobre Vorcaro, escreveu uma mensagem religiosa sobre a verdade prevalecer e, com isso, elevou a tensão no entorno do pré-candidato do PL.
A direita também perdeu a mão no debate sobre mulheres. Paulo Figueiredo, aliado do bolsonarismo e neto do general João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura militar, afirmou que mulheres votam “estatisticamente mal”, com ataque especial às solteiras. Gleisi Hoffmann (PT-PR), pré-candidata ao Senado pelo Paraná, reagiu chamando a fala de desrespeitosa e associou a declaração a um projeto de submissão das mulheres.
A fala de Figueiredo atingiu a campanha de Flávio Bolsonaro onde ela já sangrava: no eleitorado feminino. Não por acaso, a presença de mulheres no entorno de Flávio Bolsonaro era vista como peça importante para reduzir a resistência de eleitoras ao senador.
Há ainda a frente institucional. O PT protocolou, nesta terça, ações contra Flávio Bolsonaro e o PL após carta do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que agradeceu ao senador por colocar uma equipe de transição à disposição dos Estados Unidos caso fosse eleito. O partido pediu investigação à Procuradoria-Geral da República (PGR) e ao Ministério Público Eleitoral (MPE).
Flávio Bolsonaro entrou na última curva de junho com três problemas simultâneos: a guerra com Michelle, a sombra de Vorcaro e a ofensiva jurídica do PT sobre a carta de Rubio. Nenhum desses fatos, isoladamente, derruba uma pré-candidatura; juntos, eles impedem o bolsonarismo de vender a imagem de ordem, família e comando único.
Michelle desceu ao play. Pode estar mirando 2026, pode estar preservando capital para 2030, pode estar apenas recusando o papel de cabo eleitoral subalterno de Flávio Bolsonaro. A hipótese mais prudente é a terceira com consequência das duas primeiras: ao se descolar do enteado, ela passa a disputar o espólio político de Jair Bolsonaro sem pedir licença aos filhos.
O resultado é um paradoxo eleitoral. Flávio Bolsonaro foi escolhido para herdar o sobrenome, mas Michelle mostra que também quer herdar o público. E, na direita brasileira, a guerra pelo pós-Bolsonaro começou antes mesmo de a campanha oficial começar.
Abaixo, o vídeo postado em dezembro de 2025 sobre a guerra no Ceará:
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