O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), Alexandre Curi (PSD), mantém a pré-candidatura ao governo do Paraná e avisa, nos bastidores, que não vai sair da pista só porque Guto Silva (PSD) fez barulho ao acenar com Deltan Dallagnol (Novo) para vice, mesmo com o ex-deputado inelegível desde a cassação do registro pelo TSE em 16 de maio de 2023.
No início de ano, nas areias de Caiobá, onde a política paranaense costuma se encontrar fora do expediente, a conversa que correu solta foi a de que o presidente da ALEP não arreda o pé do Palácio Iguaçu. E, quando alguém insiste no “já ganhou”, o curismo responde com uma frase curta: “tem carta na manga”.
Alexandre Curi (PSD) preside a Assembleia Legislativa no biênio 2025-2027 e chegou ao cargo com votação interna unânime, com musculatura municipalista e base espalhada pelo estado.
Guto Silva, por sua vez, virou secretário das Cidades após a reforma do secretariado anunciada por Ratinho Júnior em 24 de março de 2025, e a pasta virou vitrine de gestão e vitrine de disputa. No entanto, seu entorno virou alvo de denúncias cabeludas formuladas pela oposição.
A movimentação com Deltan, segundo aliados de Curi, tem cara de “operação narrativa”. O objetivo seria tentar mudar a pauta e, de quebra, tirar do senador Sergio Moro (União) o monopólio do discurso anticorrupção, numa direita cada vez mais pulverizada. Moro foi juiz da Lava Jato.
Só que, na lógica do presidente da ALEP, barulho não decide convenção nem ganha eleição.
Curi joga com três cenários, todos ruins para quem acredita em imposição.
O primeiro é o da chapa “da casa”, com a bênção do governador Ratinho Júnior (PSD) e um vice de perfil técnico e governista. Aliados afirmam que o nome ventilado para esse papel é o do secretário da Fazenda Norberto Ortigara, que ocupa o cargo desde maio de 2024.
O recado é para o Palácio: Curi não quer só participar, quer liderar.
O segundo cenário é o do “se eu for preterido, eu saio do script”. A hipótese contada por curistas é simples e indigesta para o governo: se Ratinho bater o martelo por Guto e insistir em Deltan como vice, nada impediria Curi de procurar uma composição com Moro, inclusive como vice do senador, numa aliança de conveniência para atravessar o primeiro turno.
Essa ameaça não significa que o acordo esteja pronto. Significa que o presidente da ALEP quer deixar claro que tem porta de saída e que sabe onde ficam as chaves.
O terceiro cenário é o mais venenoso para a estratégia “Deltan-vice”. A oposição, e até gente do centro, teria argumento jurídico para carimbar a chapa como improviso.
O TSE cassou o registro de Deltan em 16 de maio de 2023. O STF negou liminar para suspender os efeitos da decisão em 7 de junho de 2023.
E, em 29 de setembro de 2025, foi sancionada a Lei Complementar 219/2025, que mudou a forma de contagem do prazo de inelegibilidade, fazendo o prazo correr a partir da decisão que decreta a perda do mandato, entre outras hipóteses.
No varejo eleitoral, o efeito é direto: Deltan pode render palanque digital, mas vira alvo fixo de questionamento judicial e de desgaste diário, com risco de contaminar a cabeça de chapa.
Como se não bastasse, o PSD ainda precisa lidar com outro polo interno.
Rafael Greca (PSD), ex-prefeito de Curitiba, foi nomeado secretário do Desenvolvimento Sustentável por decreto de 24 de março de 2025 e segue citado como nome que não aceita papel secundário.
Greca não esconde que quer jogar. E, quanto mais nomes fortes ficam no mesmo funil, mais o partido estica a guerra intestinal, com prazo de validade para não virar fratura exposta.
No fim, o que Caiobá revelou foi menos sobre praia e mais sobre poder.
Curi aposta que a sucessão não será decidida por susto. Ele tem Assembleia, tem prefeitos, tem conversa com o centro e tem a chance de virar o jogo se o Palácio tentar empurrar uma chapa por decreto político.
Durma com um barulho desses.
A tentativa de Guto de carimbar a sucessão com um vice simbólico não desarma Curi, só acelera o xadrez. Se Ratinho quiser unidade, vai ter de negociar de verdade. Se escolher no grito, abre espaço para movimentos que o Palácio não controla.
Do outro lado da trincheira, por motivos óbvios, o deputado estadual Requião Filho (PDT) torce pela briga. O neopedetista conta com o apoio da Federação Brasil da Esperação (PT, PCdoB e PV). Ele ainda busca outras três legendas para concorrer ao Palácio Iguaçu.